A notícia do assassinato do Aiatolá Khamenei, juntamente com os principais líderes militares iranianos, representa […]

A notícia do assassinato do Aiatolá Khamenei, juntamente com os principais líderes militares iranianos, representa um duro golpe no já combalido sistema de relações internacionais. Este sistema vem sendo desestabilizado desde o sequestro de Cília Flores e Nicolás Maduro, em uma clara escalada das táticas de “mudança de regime” promovidas pelos Estados Unidos.

Apesar das diferenças geopolíticas entre Venezuela e Irã, o repertório é o mesmo: conscientes dos riscos e da impopularidade de um esforço de guerra prolongado entre a população estadunidense, Washington opta por estratégias de decapitação dos principais representantes políticos e militares de governos considerados adversários.

Duas Frentes, uma Estratégia

No caso da Venezuela, a ação é executada manu militari, valendo-se da incontestável superioridade militar dos EUA em uma América Latina dividida, pouco coesa e que vem assistindo à vitória de governos de direita e extrema-direita na região.

Já no Irã, a operação é realizada em parceria com Israel, justamente em meio a um processo diplomático de negociação sobre o programa nuclear persa. Para Israel, trata-se de eliminar um aliado estratégico da causa palestina e avançar em projetos mais ambiciosos de expansão territorial, alimentando o projeto expansionista do sionismo sob a liderança de Netanyahu. Para Trump, o alvo prioritário é o controle do Estreito de Ormuz, por onde escoa cerca de 40% da produção mundial de petróleo, tendo como principal destino a China.

Fontes próximas à Casa Branca indicam que Trump teria sido convencido por seus consultores militares de que a retomada da hegemonia estadunidense não se dará por meio de guerras comerciais ou tarifaços, mas principalmente pela via militar. Soma-se a isso o fato de que uma vitória militar estadunidense poderia criar condições para que Trump recupere sua popularidade interna, atualmente abalada pelas ações do ICE e pelos desdobramentos do caso Epstein.

Cenários e Atores em Confronto

Fracassada a estratégia de guerra híbrida que tentou derrubar o governo iraniano por meio de protestos e desestabilização interna, os falcões de Washington agora buscam desmoralizá-lo no campo militar quando da Guerra dos 12 dias. Khamenei torna-se o mais novo troféu dessa estratégia. No entanto, os impactos regionais de seu assassinato são absolutamente imprevisíveis.

Há a possibilidade de Trump seguir o roteiro ensaiado na Venezuela: buscar um acordo com o governo remanescente do Irã que garanta o controle sobre o Estreito de Ormuz, estabilizando o fluxo de petróleo em troca de concessões políticas. Mas a depender do ânimo interno das forças de oposição ao governo iraniano, o desfecho pode ser outro.

Neste tabuleiro, a China aposta suas fichas na hegemonia comercial, lastreada pelo BRICS e por acordos regionais de cooperação econômica. Pequim aprendeu com o colapso da URSS, que atribui à guerra armamentista com os EUA, e tenta evitar o confronto direto. Mas essa posição pode mudar caso seus interesses energéticos sejam diretamente comprometidos.

A Rússia, por sua vez, busca conter o avanço da OTAN na Ucrânia e chegar a um termo no conflito que lhe seja vantajoso, equilibrando-se entre o apoio a seus aliados e o risco de um confronto mais amplo.

O Preço para a América Latina e o Desafio das Esquerdas

Este cenário é extremamente negativo para as forças democráticas e de esquerda na América Latina. Trump, se sair fortalecido dessa escalada militar, apontará para outros alvos na região, sendo o mais evidente Cuba. Além disso, deverá cobrar um preço alto pela manutenção formal de nossas democracias, atuando como um miliciano que exige proteção em troca de não intervir diretamente. O medo, alimentado pela superioridade militar dos EUA, segue sendo sua maior arma de dissuasão.

No plano interno brasileiro, a situação impõe uma reflexão urgente. O bloco conservador, apesar de suas diferenças táticas, tem demonstrado coesão e capacidade de articulação — o que contribui para o bom desempenho de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Tudo indica que teremos segundo turno, e Trump não perderá a oportunidade de ter um governo alinhado em um país estratégico como o Brasil. Para isso, utilizará as big techs e a inteligência artificial para influenciar o resultado das eleições por aqui, repetindo o receituário de intervenção híbrida testado em outras nações.

Diante dessa ofensiva, a resposta das forças progressistas não pode ser o fragmentário imobilismo das diferenças. O caminho é reeditar, no Brasil, a política de frente ampla que tem dado certo em experiências bem-sucedidas na região, como no Uruguai, onde setores diversos do campo democrático e popular souberam construir unidade programática para enfrentar a onda conservadora. Não se trata de anular as divergências, mas de reconhecer que o inimigo comum — poderoso, organizado e sem freios — exige convergência estratégica. A sobrevivência da democracia e a construção de alternativas populares dependem da capacidade de unir o campo progressista em torno do que é essencial: derrotar o projeto autoritário e antinacional que ameaça o Brasil e a América Latina.

Prof. Dr. Fábio Nogueira
Sociólogo e Professor da UNEB

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Professor Adjunto da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Doutor em Sociologia pela USP (2015), possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2002) e mestrado em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (2009). Durante seu doutorado, foi Pesquisador Colaborador Visitante da Universidade de Princeton e Pesquisador do Museu Nacional José Martí / Universidade de Havana. Desenvolve pesquisas nas áreas de Teorias Críticas e Negritude e é membro do Grupo de Pesquisa CELACC/USP. É autor de Clóvis Moura: trajetória intelectual, práxis e resistência negra (Eduneb, 2015).

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